Sobreviver ao Holocausto com diabetes tipo 1: A história de Ernest Sterzer

Sobreviver ao Holocausto com diabetes tipo 1: A história de Ernest Sterzer


Ernest Sterzer, nascido em Viena, na Áustria, foi diagnosticado aos 3 anos de idade com diabetes tipo 1.

Quando a Segunda Guerra Mundial começou, Adolf Hitler e os nazistas deram início o Holocausto, um genocídio no qual cerca de seis milhões de judeus foram mortos.

Durante este tempo, a “solução final para a questão judaica” de Hitler era ter campos de concentração com milhões de prisioneiros, incluindo Sterzer.

E a história de como Sterzer sobreviveu ao Holocausto e como suportou até obter a insulina necessária para sobreviver vamos compartilhar agora.

Pão como negociação para a insulina

Sterzer chegou ao campo de concentração de Theresienstadt, Checoslováquia, em 1 de outubro de 1942. Teve que dormir no chão frio e observou a maior parte dos idosos morrerem devido às péssimas condições e fome.

Sterzer conseguia obter a insulina furtando o pão na padaria que trabalhava.

Ele entregava a sua mãe, ela por sua vez encontrava uma mulher que em troca da insulina recebia o pão.

Foi transferido de Theresienstadt em 15 de Outubro de 1944 rumo a Auschwitz.

Durante essa viagem, perdeu uma pequena bagagem contendo uma seringa, agulhas e seis garrafas de insulina. Conseguiu chegar ao seu destino em 17 outubro de 1944.

Chegando em Auschwitz

Após dois dias sem insulina, Sterzer entrou em coma durante a noite e acordou dois dias depois em um hospital. O médico responsável, tinha insulina disponível e apesar do uso de uma agulha enferrujada, Sterzer conseguiu evitar o envenenamento do seu sangue.

Cerca de duas semanas depois, a notícia que as tropas russas estavam avançando em Auschwitz se espalhou e os prisioneiros tiveram de ser transferidos.

O médico do Sterzer o salvou de uma morte inevitável nas mãos dos guardas soviéticos, alegando que a sua doença era devido a um “pé inchado” e que ele estava bem o suficiente para sair de Birkenau.

Sterzer também conseguiu receber um pequeno pacote de medicação de seu médico, porém durante este novo deslocamento ele ficou mais uma vez sem insulina.

Heinkel Werke

Depois de embarcar em um trem de gado, Sterzer se viu em Heinkel Werke, uma das maiores fábricas de avião da Alemanha. Faziam três dias que ele havia injetado insulina.

Ao chegar da viagem, Sterzer, mal conseguia ficar de pé, mas conseguiu ainda informar a um dos médicos sobre seu quadro de diabetes tipo 1.

E finalmente Sterzer recebeu uma nova aplicação de insulina o que novamente o salvou da morte; tomou uma tigela de sopa quente – o primeiro alimento que ele havia consumido em três dias.

Este médico o visitava a cada três dias para entregar a insulina, mas a sua condição física estava se complicando, e depois de 10 dias, sua perna direita havia inchado até o ponto onde ele não poderia andar.

Sterzer teve um alívio temporário quando foi internado em um hospital para os judeus, mas depois de uma semana foi informado que o fornecimento de insulina havia acabado.

Posteriormente, Sterzer foi avisado que seria novamente transferido, desta vez para Oranienburg-Sachsenhausen.

Oranienburg-Sachsenhausen

Oranienburg tinha um hospital bem equipado. Sterzer tinha sua urina analisada duas vezes por dia e seu açúcar no sangue, uma vez ao dia. Neste período, ele recebeu uma dose de 110 unidades de insulina para diminuir os seus níveis de açúcar no sangue, uma dose muita alta e que poderia ter lhe custado a vida mais uma vez.

Depois de três semanas em Oranienburg, a orelha de Sterzer teve um fluxo constante de pus – foi dito que ele havia desenvolvido um mastóide infecção bacteriana localizada no processo mastóide (uma estrutura do osso temporal), a proeminência situada atrás da orelha. ). No dia seguinte, ele desenvolveu paralisia do palato mole, no céu da boca e com isso ficou incapaz de falar.

Passado todo este turbulento momento que havia comprometido sua saúde, ele conseguiu um trabalho no hospital, entregando comida aos presos e lavando pratos.

Esta oportunidade de emprego foi encerrada de maneira muito breve, pois um guarda soviético jamais poderia permitir que um judeu estivesse trabalhando no hospital. Isso levou Sterzer receber uma surra que ele se referiu como “uma das piores que eu já experimentei.”

Oranienburg evacuação

Depois de receber uma seringa e um pouco de insulina de um enfermeiro, Sterzer e o resto dos prisioneiros foram transferidos para Oranienburg.

Sterzer foi obrigado a andar 16 horas por dia em um episódio que ficou conhecido como a “marcha da morte”.

Na manhã de 2 de Maio de 1945, o último guarda soviético havia deixado o grupo de Sterzer para se juntar ao combate que ali próximo ocorria.

Sterzer conseguiu escapar e encontrou dois soldados norte-americanos que forneceram o devido tratamento médico.

Chegando em Viena

Ao chegar de volta em Viena, três semanas depois, Sterzer descobriu que seu pai havia se juntado as tropas em Auschwitz. Sua mãe morreu nos campos de concentração, enquanto seu irmão conseguiu voltar a Viena.

Nos principais hospitais de Viena, não havia insulina disponível.

Sterzer ficou cego em 1953 devido a hemorragias que sofreu nas mãos dos guardas e complicações devido a falta de insulina diariamente.

Ernest Sterzer morreu no dia 1 de maio de 1973.

Versão original: http://www.diabetes.co.uk/blog/2015/03/surviving-the-holocaust-with-type-one-diabetes-the-story-of-ernest-sterzer/

Adaptado do livro: Ernest Sterzer’s memoirs 

Crédito da imagem: http://www.dlife.com